
Presença de pré-candidatos e lideranças da direita transformou ato religioso em palco político e reacendeu críticas ao uso eleitoral da fé.
Pela Redação | A Voz do Povo em Tela
A Marcha para Jesus realizada neste sábado (20), na Arena Pantanal, em Cuiabá, terminou cercada por questionamentos após registrar um público muito abaixo da expectativa anunciada pelos organizadores. Enquanto a previsão divulgada nos dias que antecederam o evento era de 50 mil participantes, a estimativa da Polícia Militar apontou a presença de aproximadamente 4 mil pessoas.
A diferença entre os números rapidamente ganhou repercussão política, principalmente porque o ato contou com a participação de importantes nomes do bolsonarismo. Entre eles, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que vem sendo apresentado por aliados como um dos possíveis candidatos da direita à Presidência da República em 2026.
A expectativa criada em torno da presença do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, porém, não se confirmou. Flávio participou do evento, mas não realizou discurso político, evitou entrevistas com a imprensa e manteve uma postura discreta durante a programação.
O silêncio chamou atenção porque, em outras ocasiões, o senador tem utilizado frequentemente discursos que misturam política e religião, apresentando disputas eleitorais como embates entre o bem e o mal. Em Cuiabá, no entanto, preferiu não ocupar o centro do debate.
Quem acabou assumindo maior protagonismo foi o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), que discursou durante o evento e participou de momentos de oração ao lado de Flávio Bolsonaro e outras lideranças conservadoras.
A forte presença de pré-candidatos e agentes políticos transformou uma manifestação religiosa em um ambiente marcado por interesses eleitorais. O cenário reacendeu críticas de setores que defendem a separação entre fé e campanha política.
Nos últimos anos, símbolos religiosos passaram a ocupar espaço cada vez maior em estratégias eleitorais da direita brasileira. A utilização de passagens bíblicas, referências a Deus e discursos de cunho espiritual tornou-se uma marca recorrente de campanhas e mobilizações ligadas ao bolsonarismo.
Críticos afirmam que a fé não deve ser utilizada como ferramenta para conquistar votos nem como escudo para projetos de poder. Para eles, religião e política podem dialogar, mas não devem se confundir.
A baixa adesão registrada em Cuiabá também alimentou debates nas redes sociais. Internautas ironizaram a diferença entre o público prometido e o efetivamente presente, apontando que a realidade ficou muito distante da mobilização anunciada pelos organizadores.
Diante da repercussão, o prefeito Abilio Brunini minimizou as críticas e afirmou que a importância da Marcha para Jesus não deveria ser medida apenas pela quantidade de participantes, mas pela mensagem transmitida durante o evento.
Ainda assim, o contraste entre os 50 mil esperados e os cerca de 4 mil estimados pela Polícia Militar acabou se tornando o principal fato político do dia. Para observadores da cena política mato-grossense, o episódio pode ser interpretado como um sinal de desgaste de uma estratégia que aposta na mistura entre religião e mobilização eleitoral.
Mais do que uma discussão sobre números, o evento deixou uma pergunta no ar: até que ponto a população continua respondendo a discursos que transformam a fé em instrumento de disputa política?

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