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A RESISTÊNCIA TAMBÉM SE ESCREVE
Enquanto Salvador colocou os trens do antigo VLT mato-grossense para funcionar, Cuiabá segue presa em obras intermináveis, contratos inflados e promessas políticas que nunca saem do papel

Pela Redação | A Voz do Povo em Tela

O que foi anunciado pelo Governo de Mato Grosso como uma solução “mais rápida, moderna e barata” para substituir o VLT virou um dos maiores símbolos de atraso, confusão administrativa e explosão de custos da história recente do estado.

Quando decidiu abandonar o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) e implantar o BRT, o então governador Mauro Mendes prometeu uma obra completa por R$ 480 milhões, com entrega prevista para dezembro de 2022.

Mas maio de 2026 chegou mostrando uma realidade completamente diferente da propaganda oficial.

O BRT continua inacabado.

O prazo prometido explodiu.

E o custo já ultrapassou aquilo que havia sido anunciado para TODO o projeto.

Hoje, apenas 44% do trecho 1 foi concluído — justamente a ligação entre o Aeroporto Marechal Rondon e o fim da Avenida do CPA.

E o dado mais impressionante é que somente a pavimentação desse primeiro trecho já alcança aproximadamente R$ 550 milhões.

Ou seja: apenas parte da obra já custa mais do que o orçamento divulgado originalmente para toda a implantação do BRT em Cuiabá e Várzea Grande.

Enquanto isso, o trecho 2, na Avenida Fernando Corrêa, sequer teve a pavimentação iniciada. Também continuam pendentes as obras de terminais, estações e toda a estrutura operacional necessária para colocar o sistema em funcionamento.

Na prática, a população convive diariamente com desvios, congestionamentos, lama, poeira e prejuízos ao comércio local enquanto o modal prometido segue parado no discurso político.

E os problemas não param nos atrasos.

Após rescindir o contrato com o consórcio responsável pelas obras, o Governo do Estado anunciou que faria novas contratações por meio de licitações fatiadas.

Mas uma dessas novas licitações já abriu espaço para questionamentos graves.

A construção das 77 estações do trecho 1 teve inicialmente um edital estimado em R$ 68 milhões. Depois, o governo cancelou o processo e lançou outro edital com o mesmo objeto, agora no valor de R$ 120 milhões.

A diferença ultrapassa R$ 53 milhões.

A pergunta que a população faz é simples: como a mesma obra fica tão mais cara em tão pouco tempo?

O silêncio do governo estadual sobre a diferença de valores aumenta ainda mais a cobrança por transparência.

A situação ganhou repercussão nacional após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentar publicamente o fracasso da substituição do VLT pelo BRT.

Durante agenda oficial, Lula revelou que esteve em Salvador e descobriu que os trens utilizados no VLT da capital baiana eram justamente os vagões comprados originalmente para Mato Grosso durante as obras da Copa do Mundo de 2014.

“Andei no VLT de Salvador, mas pasmem o que eu fiquei sabendo lá: aquele VLT foi comprado para ser montado em Mato Grosso. Como era obra do outro governador, o atual não quis fazer. ‘Não vou fazer VLT, vou fazer um BRT’”, afirmou o presidente.

A declaração expôs nacionalmente uma situação constrangedora para Mato Grosso.

Enquanto Salvador colocou os trens em funcionamento, Cuiabá ficou sem VLT, sem BRT e sem qualquer solução definitiva para o transporte coletivo.

Lula ainda ironizou a situação ao afirmar:

“Nem o VLT, nem o BRT, nem qualquer coisa está funcionando em Cuiabá.”

A frase resume perfeitamente o sentimento de milhares de mato-grossenses que acompanham há anos uma obra marcada por promessas descumpridas e gastos crescentes.

Os vagões do VLT foram vendidos pelo Governo de Mato Grosso em negociação intermediada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), numa operação superior a R$ 700 milhões e com desconto aproximado de 40%.

Hoje, a Bahia colhe os resultados do sistema em funcionamento.

O desgaste político atinge diretamente Mauro Mendes, que tenta viabilizar sua candidatura ao Senado Federal, e também Otaviano Pivetta, que trabalha para assumir o comando político do estado como candidato à reeleição ao Governo de Mato Grosso.

Pivetta não pode alegar distância das decisões tomadas. Como vice-governador e aliado político central do grupo, participou da defesa pública do projeto e agora terá de responder junto com Mauro Mendes sobre uma obra prometida para 2022 que segue incompleta em 2026.

O caso do BRT se transformou em símbolo de uma gestão que vende eficiência no discurso, mas entrega atrasos, licitações mais caras e um sistema que ainda não saiu do papel.

Enquanto Mauro Mendes e Pivetta aceleram seus projetos eleitorais, Cuiabá segue parada no trânsito das promessas.

E a população continua pagando a conta de uma obra que já entrou para a história como um dos maiores vexames administrativos da infraestrutura mato-grossense.


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