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A RESISTÊNCIA TAMBÉM SE ESCREVE

O recado é claro: quando a caneta aparece, a direita faz política para proteger criminosos — não para proteger o povo

Pela Redação | A Voz do Povo em Tela

O roteiro é conhecido e repugnante: quem posa de duro contra o crime transforma a lei em blindagem para os seus. Guilherme Derrite (PP-SP) — secretário de Segurança do governo Tarcísio que voltou à Câmara para assumir a relatoria do pacote antifacção — apresentou um parecer que, na prática, coloca a Polícia Federal sob o carimbo político dos governadores, transferindo para as polícias estaduais a responsabilidade por investigações que são, por natureza, interestaduais e transnacionais. A manobra não é tecnicismo inocente: é um atalho para proteger quem lucra com o crime organizado.

Ao condicionar a atuação federal a pedidos formais dos executivos estaduais, o relatório cria um emaranhado burocrático que retarda, fragiliza e, em muitos casos, inviabiliza investigações complexas — aquelas que mapeiam lavagem de dinheiro, conexões entre milícias, corrupção em repartições públicas e esquemas que atravessam fronteiras estaduais. Em outras palavras: transforma instrumentos de investigação em muletas para o poder local, e deixa intactos os nexos do crime com o “andar de cima”.

A pressão pública e técnica forçou um recuo parcial de Derrite, mas o problema permanece. Mesmo ajustado, o substitutivo desloca o eixo do projeto original do Executivo, fragiliza coordenações e abre brechas jurídicas que serão exploradas por quem não quer resposta institucional. O discurso de “lei e ordem” vendido pela direita desaba quando confrontado com a prática: proteger e blindar interesses que prosperam com a omissão e a conivência.

É necessário dizer sem rodeios: o bolsonarismo e suas alas mais radicais apresentaram, repetidas vezes, retórica contra o crime que não coincide com as escolhas legislativas e políticas que apoiam. Quando se trata de investigação séria — aquela que alcança milionárias cadeias de lavagem, políticos e agentes públicos coniventes — a prioridade muda. A PF vira alvo de restrições, e as instituições que deveriam combater o crime ficam amarradas por jogos de poder federativo.

O resultado prático é previsível: mais ruído político, menos ações efetivas; mais vazamento de informação e menos coordenação; mais tempo para que organizações criminosas lavem dinheiro, cooptam servidores e expandam sua penetração em órgãos públicos e grandes corpos econômicos. A segurança pública de verdade exige autonomia técnica, cooperação nacional e instrumentos que não sejam submetidos a carimbos ou conveniências políticas. Enfraquecer a PF é facilitar a sobrevivência das facções.

Se a intenção declarada é combater o crime organizado, as escolhas legislativas devem corresponder: coordenação entre União e estados, investigação financeira robusta, instrumentos legais que não deixem brechas federativas para a politicagem. O que se viu na relatoria de Derrite foi exatamente o contrário — e é isso que expõe, com toda a crueza, a natureza do bolsonarismo quando o assunto deixa de ser discurso e vira poder.


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