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A RESISTÊNCIA TAMBÉM SE ESCREVE

“Se for preciso, a militância vai a pé, vai de bicicleta, quando cansar chama um Uber — mas de táxi jamais”: a ironia que virou recado direto a Pedro Taques

Pela Redação | A Voz do Povo em Tela

“Apoiar quem destruiu a saúde de Mato Grosso é uma vergonha para qualquer petista.” A frase, dita de forma firme e sem rodeios pelo presidente do Partido dos Trabalhadores de Sinop, resume o clima de revolta que tomou conta da militância após a decisão unilateral do presidente nacional do PT, Edinho Silva, de anunciar Pedro Taques como nome da federação de esquerda ao Senado.

O posicionamento do dirigente sinopense ecoou como um grito represado de base. Para ele, não se trata apenas de uma divergência eleitoral, mas de uma afronta à história recente do estado e à memória de milhares de trabalhadores da saúde e usuários do SUS que sofreram durante o governo Pedro Taques. “Quem viveu aquele período sabe. Hospitais sucateados, profissionais sem receber, contratos rompidos, gente trabalhando sem salário e a população abandonada. Isso não pode ser apagado por conveniência política”, afirmou.

O estopim da crise foi o encontro da Federação Brasil da Esperança, realizado neste domingo (14), na sede da AMM, em Cuiabá. Diante de cerca de 40 lideranças e militantes de PT, PV, PCdoB e PSD, Edinho Silva anunciou, sem debate prévio, que Pedro Taques será o candidato do grupo ao Senado. A decisão, tomada de forma isolada, caiu como uma bomba no ambiente já sensível da federação.

A frustração foi generalizada. Lideranças reclamaram que não houve qualquer discussão interna, consulta às direções municipais ou diálogo com os presidentes do partido no estado. Nos bastidores, a articulação envolveu apenas a presidente regional licenciada do PT, Rosa Neide, e o empresário Carlos Augustin, assessor especial do Ministério da Agricultura e presidente do Conselho de Administração da Embrapa.

Antes mesmo do encontro, Edinho se reuniu reservadamente com Taques em Cuiabá. O ex-governador já acertou filiação ao PSB, partido do vice-presidente Geraldo Alckmin. Curiosamente, o anúncio foi feito sem a presença do próprio Taques e sem a participação do senador licenciado e ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, adversário político direto do ex-governador. Entre os militantes, a leitura foi imediata: uma jogada para enfraquecer e “queimar” a pré-candidatura de Fávaro à reeleição.

Foi nesse contexto que a fala do presidente do PT de Sinop ganhou força simbólica. Ao ironizar o anúncio, ele disse que a militância “vai a pé, vai de bicicleta, quando cansar chama um Uber”, mas fez questão de completar que “de táxi jamais”. A frase arrancou aplausos e risos nervosos, mas carregava um recado claro: o partido não aceita ser conduzido, novamente, por um projeto político associado ao desmonte do serviço público.

Para Ney da Saúde, a postura do presidente nacional do PT revela um distanciamento perigoso entre a cúpula partidária e a realidade da base. “Não se pode apresentar um candidato ao Senado sem ouvir os presidentes municipais, sem ouvir quem está no dia a dia do partido, sem respeitar a história de luta do PT em Mato Grosso”, criticou. Segundo ele, a decisão enfraquece a federação, desmobiliza a militância e coloca em risco a credibilidade do campo progressista no estado.

A crise expõe mais do que um racha momentâneo. Escancara o conflito entre uma lógica de acordos de cúpula e a memória concreta de quem enfrentou o caos na saúde, o atraso de salários e o sucateamento dos serviços públicos. Para muitos petistas, apoiar Pedro Taques não é apenas uma escolha equivocada — é cruzar uma linha que a base não está disposta a aceitar.


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