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A RESISTÊNCIA TAMBÉM SE ESCREVE

Sorriso vira símbolo de um tribunal desacreditado: quinto afastamento de magistrado em 2025 escancara um sistema que protege a toga e abandona o povo

Pela Redação | A Voz do Povo em Tela

O afastamento do juiz Anderson Candiotto, titular da 4ª Vara Cível de Sorriso, não é um “fato isolado” nem um “ponto fora da curva”. É o retrato de um Judiciário em franca decomposição moral. Em 2025, Mato Grosso já contabiliza cinco magistrados afastados de suas funções, dois só na comarca de Sorriso, transformando o município no epicentro de uma crise que o Tribunal de Justiça (TJMT) insiste em tratar com silêncio, segredo de Justiça e notas frias de gabinete.

A decisão unânime do Órgão Especial que afastou Candiotto escancarou denúncias que há muito circulavam nos corredores do foro: suposta venda de decisões, manobras processuais para beneficiar grupos econômicos e pressões ilegais sobre produtores rurais. Relatos apontam para um esquema que usaria contratos agrícolas e ações judiciais como instrumentos de chantagem, num ambiente em que a caneta do juiz valeria mais que qualquer direito fundamental.

Segundo fontes do próprio meio jurídico, o magistrado teria contado com o apoio de advogados próximos e de uma assessora de confiança, que chegou a utilizar o token de segurança do juiz para assinar decisões durante viagens internacionais. Se confirmado, não se trata apenas de “desvio funcional”: é corrosão total da integridade do cargo. A toga vira senha de sistema, e a sentença vira produto entregue em nuvem — sob medida para quem tem poder e dinheiro.

As suspeitas avançam ainda sobre operações empresariais. Candiotto é citado como possível sócio oculto de empresas ligadas ao Grupo Safras, conglomerado do agronegócio em recuperação judicial e acusado de causar prejuízos milionários a produtores. Há relatos de intermediação de contratos para o escritório da então esposa, reuniões em que produtores eram pressionados sob ameaça de penhora de bens e uso de contratos de compra e venda de grãos firmados por WhatsApp como instrumento de extorsão, com suposto apoio de um desembargador também afastado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Mesmo diante desse cenário, o medo ainda fala mais alto. Poucos produtores e profissionais formalizaram denúncias. O clima é de intimidação. Há informações de que, mesmo afastado, o juiz continuaria exercendo influência nos bastidores. O patrimônio distribuído em seu nome e no de familiares deve ser rastreado pelo Coaf, e existem relatos de intimidações recentes contra sua ex-esposa. A sensação é clara: quando a Justiça amedronta quem deveria proteger, algo muito grave se quebrou no Estado Democrático de Direito.

E Candiotto não é um raio em céu azul. Antes dele, já haviam sido afastados a juíza Tatiana dos Santos Batista, por faltas funcionais; o juiz Renato José de Almeida Costa Filho, por baixa produtividade; a juíza Silvia Renata Anffe Souza, filha de ex-desembargador, também da região de Sorriso; e o juiz Mirko Vincenzo Giannotte, da Vara da Fazenda Pública de Sinop. A lista segue com três nomes do topo da pirâmide: os desembargadores Sebastião de Moraes Filho e João Ferreira Filho e o juiz Ivan Lúcio Amarante, afastados pelo CNJ sob suspeita de recebimento de vantagens indevidas e interferência ilícita em decisões.

O resultado é devastador: um Tribunal de Justiça que deveria ser o guardião da segurança jurídica passa a ser enxergado como parte do problema. Enquanto a população espera decisões técnicas, imparciais e fundamentadas, o que se vê é um rastro de corporativismo, segredo de Justiça e autodefesa institucional. A cada novo afastamento, o discurso oficial fala em “caso pontual” e “apuração rigorosa”, mas o padrão se repete: pouca transparência, muita blindagem e quase nenhuma prestação de contas à sociedade.

Quando o Judiciário se esconde atrás de sigilos e jargões, quem perde é o povo. A confiança na Justiça não é um luxo: é condição básica para que contratos, direitos, políticas públicas e a própria democracia funcionem. Em Mato Grosso, porém, o recado que chega ao cidadão comum, ao pequeno produtor e a quem depende de uma sentença justa é outro: vale mais ter acesso aos bastidores do poder do que ter razão.

No campo, produtores ruralistas e empresários, especialmente em áreas de conflito fundiário, ambiental e agrário, convivem com a suspeita de que decisões podem ser “ajustadas” de acordo com o peso econômico das partes. Já o pequeno agricultor, o trabalhador urbano e o cidadão que não têm padrinhos nem sobrenomes influentes assistem à Justiça virar palco de escândalos sucessivos, enquanto seus processos dormem nas gavetas.

Se o Judiciário mato-grossense quiser sobreviver como instituição republicana — e não como balcão de negócios a serviço de elites políticas e econômicas — terá de fazer mais do que afastar juízes e publicar notas protocolares. Precisará abrir processos, detalhar acusações, garantir transparência, permitir que a sociedade saiba o que está sendo investigado e quais sanções serão aplicadas. Sem isso, continuará parecendo apenas uma grande confraria de togas protegendo a si mesmas.

Cinco afastamentos de magistrados em um único ano, num mesmo Estado, não são coincidência. São sintoma de uma doença profunda: a distância entre o que o Judiciário diz que é — “pilar da democracia” — e o que parte de seus membros pratica nos bastidores. Enquanto essa contradição persistir, o povo seguirá sem justiça de verdade. E Mato Grosso seguirá refém de um sistema que pune seletivamente, protege os de cima e impõe silêncio aos de baixo.

O mínimo que a população pode exigir é luz sobre tudo isso. Nome, processo, decisão, punição. Chega de segredo de Justiça usado como cortina de fumaça. Quem veste a toga para vender decisões ou intimidar quem busca seus direitos não merece a proteção do cargo, mas o peso da lei — a mesma lei que hoje é usada, com tanta facilidade, contra o cidadão comum.

Fonte: Deixa Que Eu Te Conto — https://deixaqueeuteconto.com.br/sorriso-tem-novo-afastamento-de-juiz-e-o-quinto-no-estado-em-2025/


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