
Enquanto deputados cobram transparência, o governo tenta justificar o injustificável: hospitais atrasados, contratações lentas e um SUS sobrecarregado no estado.
Pela Redação | A Voz do Povo em Tela
A Comissão de Saúde, Previdência e Assistência Social da Assembleia Legislativa de Mato Grosso aprovou, na manhã desta terça-feira (25), a convocação do secretário de Estado de Saúde, Gilberto Figueiredo, para esclarecer uma série de pontos que se arrastam há anos na gestão estadual: concursos públicos, situação dos hospitais regionais, Santa Casa de Cuiabá, Hospital Central, Hospital Júlio Müller e demais unidades estratégicas para o atendimento do SUS no estado.
A decisão foi tomada durante a sexta reunião ordinária de 2025, após parlamentares relatarem falta de informações claras sobre prazos, execução de obras, contratações e definições administrativas. A convocação surge em meio a crescente insatisfação de servidores, usuários do SUS e prefeitos, que enfrentam diariamente o apagão assistencial provocado pelo atraso nas obras e pela insuficiência de profissionais.
Os deputados destacaram que não houve, em nenhum momento, debate sobre fechamento de unidades hospitalares — como a Santa Casa de Cuiabá —, mas sim questionamentos sobre a instabilidade dos modelos de gestão, sempre trocados e ajustados, sem que a população veja resultados concretos nas filas, nas cirurgias e na atenção básica.
O presidente da Comissão, Paulo Araújo (PP), reforçou que a Santa Casa não corre risco de encerramento, independentemente do modelo: estadual, consorciado ou municipal. Porém, a repetição dessas garantias ao longo dos últimos anos evidencia que, se não há risco de fechar, também não há garantia de plena funcionalidade — e isso atinge diretamente pacientes que dependem do atendimento especializado da unidade.
Entre os temas urgentes, está o concurso público da SES. Apesar de ter sido anunciado como parte da modernização da rede estadual, o processo avança a passos lentos. Até o primeiro semestre de 2025, apenas parte dos aprovados foi chamada — número insuficiente para suprir a demanda real. Deputados querem saber por que o discurso de “prioridade na saúde” não se traduz em nomeações, já que o déficit de pessoal continua sendo uma das maiores causas do colapso em hospitais regionais e prontos atendimentos.
A situação dos hospitais regionais também será ponto central da oitiva. As visitas realizadas pelo deputado Sebastião Rezende (União Brasil) revelaram um cenário incoerente com as promessas do governo. O Hospital Regional de Alta Floresta, de fato, avança para sua reta final — mas os demais acumulam entraves gritantes. Em Juína, cerca de 60% da obra está concluída, mas a contratação de pessoal não acompanha o cronograma físico. Em Confresa e Tangará da Serra, os atrasos são constantemente atribuídos a questões “administrativas”, palavra-coringa que geralmente tenta esconder falhas graves na execução, licitação ou gestão.
Rezende foi direto: “Precisamos saber se o problema é de gestão ou outra coisa, porque recurso tem”. E essa frase resume o grande impasse: se o dinheiro existe, por que as obras não andam? Por que a população continua viajando centenas de quilômetros em busca de atendimento? E por que motoristas que transportam pacientes — muitas vezes dirigindo 700 a 800 km em um único dia — sequer têm um local digno para descansar?
A crítica do deputado Dr. João (MDB) sobre a necessidade de criar uma central de acolhimento para esses trabalhadores expõe outra ferida aberta: dos 142 municípios de Mato Grosso, poucos possuem casas de apoio minimamente estruturadas. Profissionais que transportam pacientes de madrugada, percorrem estradas perigosas, esperam horas em Cuiabá e depois retornam, continuam invisíveis na política pública estadual. O Projeto de Lei 63/2025, citado por ele, tenta corrigir uma omissão histórica: garantir segurança, descanso e dignidade para quem carrega vidas diariamente.
A convocação de Gilberto Figueiredo, portanto, não é apenas um ato formal. É uma resposta política a um sistema que opera no limite e deixa claro que discursos de eficiência não sustentam a realidade vivida nos corredores das unidades de saúde. Os deputados querem datas, documentos, justificativas, cronogramas reais, e não mais promessas futuristas.
A população, por sua vez, espera respostas práticas: quando os hospitais atrasados serão entregues? Quando os aprovados serão nomeados? Quando o Hospital Central e o Júlio Müller voltarão a operar plenamente? E quando a maior rede de saúde do Centro-Oeste deixará de depender do improviso para funcionar?
Nos próximos dias, a Comissão definirá a data da oitiva. E, dessa vez, não basta comparecer; será preciso explicar.

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