
Crise silenciosa no Judiciário expõe o colapso do discurso moralista de quem se dizia “defensor dos bons costumes”.
Pela Redação | A Voz do Povo em Tela
Dois magistrados do Tribunal de Justiça de Mato Grosso foram afastados de seus cargos pela Corregedoria-Geral do TJ-MT, em decisões tomadas na quarta-feira (19) e confirmadas apenas nesta sexta-feira (21) por fontes internas. Os afastados são Mirko Vincenzo Giannotte, da Vara da Fazenda Pública de Sinop, e Silvia Renata Anffe, da 2ª Vara Cível de Sorriso.
Os motivos? Segredo absoluto.
Os processos correm em sigilo, e o Tribunal mantém silêncio total sobre o que levou à queda de dois juízes de comarcas estratégicas do norte do estado. A Corregedoria é comandada pelo desembargador José Luiz Lindote, responsável pela determinação.
Os afastamentos — por tempo indeterminado — ainda serão analisados pelo Pleno do Tribunal de Justiça na próxima quinta-feira (27), na primeira sessão administrativa após a decisão. Até lá, impera um clima de tensão e curiosidade, enquanto o TJ tenta segurar a tampa da panela de pressão institucional.
A situação de Mirko Giannotte ecoa de forma particular no debate público. O magistrado ganhou notoriedade nacional em 2021 ao se inscrever para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Naquele momento, sob o governo Jair Bolsonaro, Mirko fez questão de se apresentar como homem de “berço evangélico”, defensor intransigente dos “valores morais” e dos “bons costumes”.
É exatamente esse discurso que agora retorna como sombra.
E como sempre, quando o moralismo bate na porta de casa, a retórica desaparece, o tom muda, e resta apenas o silêncio estratégico de quem sempre pregou virtude enquanto esperava não precisar prestar contas.
O segredo de Justiça alimenta ainda mais a sensação de que algo grave se move nos bastidores do Judiciário mato-grossense. Em Sinop e Sorriso, cidades que crescem economicamente e vivem conflitos de poder cada vez maiores, a notícia explode como um abalo sísmico institucional: dois juízes cruciais afastados sem explicação pública.
Em um estado onde discursos conservadores se misturam com tentativas de blindagem política, a queda de nomes que antes defendiam a “família tradicional” e a “boa moral” faz soar uma ironia inevitável: quem grita mais alto sobre virtude costuma ser o primeiro a tropeçar nela.
Resta ao povo, mais uma vez, esperar que o TJ-MT faça o básico — transparência, explicação e prestação de contas. A Justiça não pode exigir confiança enquanto mantém portas trancadas e processos em penumbra.

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