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A RESISTÊNCIA TAMBÉM SE ESCREVE

Mato Grosso é o estado que mais mata mulheres no país e Sorriso é o epicentro da barbárie. Enquanto isso, deputados “defensores da família” votam leis contra meninas estupradas.

Pela Redação | A Voz do Povo em Tela

Sorriso, norte de Mato Grosso. Cidade de pouco mais de 110 mil habitantes, famosa por ser “a capital do agronegócio”. Tratores, soja, caminhonetes de luxo e cifras bilionárias formam a fachada de prosperidade. Mas por trás da propaganda, há outro título, muito mais vergonhoso: Sorriso é a capital do estupro do Brasil.

A “Ilha de Marajó do cerrado”. É assim que Sorriso passou a ser chamada nas entrelinhas das estatísticas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Em 2023, a cidade liderou o ranking nacional de estupros entre municípios com mais de 100 mil habitantes: 113,9 casos por 100 mil pessoas.
No ano seguinte, a situação piorou: 131,9 casos por 100 mil habitantes, o segundo pior índice do Brasil, atrás apenas de Boa Vista (RR). Isso representa cerca de 150 vítimas de estupro em um único ano — e cada número é uma menina, uma mulher, uma história violentada.

Em Sorriso, o silêncio virou rotina. E o Estado, ausente.


O Brasil do estupro a cada seis minutos

O Anuário de 2025 do FBSP mostra que, em 2024, o Brasil registrou 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável — o maior número da série histórica.
Isso significa 1 estupro a cada 6 minutos, 10 por hora, 240 por dia.
De 2015 a 2024, foram 685 mil estupros oficialmente registrados, mas o próprio relatório alerta: apenas 10% das vítimas denunciam. Ou seja, a estimativa real supera 6 milhões de vítimas em uma década.

Série histórica — Brasil (2015 a 2024)

AnoCasos de estupro e vulnerável
201547.461
201655.070
201763.157
201866.893
201969.886
202062.917
202168.885
202278.887
202383.988
202487.545

Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP, Anuários 2024 e 2025).

E quando se observa o perfil das vítimas, o horror se aprofunda:

  • 76,8% têm menos de 14 anos.
  • 65% dos casos acontecem dentro de casa.
  • Mais da metade dos agressores são familiares ou conhecidos.

Ou seja, o estupro no Brasil tem endereço, sobrenome e rotina. É o crime da intimidade, do silêncio e da impunidade.


Mato Grosso: o estado que mais mata mulheres

Enquanto Sorriso lidera em estupros, Mato Grosso lidera em feminicídios.
Em 2024, foram 47 mulheres assassinadas por serem mulheres, uma taxa de 2,5 por 100 mil — a mais alta do país.
Em 83% dos casos, o crime aconteceu dentro de casa; e em 9 deles, os filhos presenciaram a execução da própria mãe.
89 crianças ficaram órfãs.
Esses dados vêm do Relatório Estadual de Feminicídios 2024, do Ministério Público de Mato Grosso.

Nos últimos anos, o número se mantém alto e vergonhosamente estável. Segundo dados do próprio MPMT, entre 2019 e 2024 o estado registrou em média 45 feminicídios por ano.
Mesmo com o crescimento das Delegacias da Mulher, o que falta é o básico: prevenção, políticas públicas e combate à cultura de posse e violência.


A família dos hipócritas

Enquanto meninas e mulheres são violentadas em números crescentes, o Congresso Nacional mostra o lado mais obsceno da hipocrisia política.
Nesta semana, a Câmara dos Deputados aprovou um decreto legislativo que revoga diretrizes do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) que facilitavam o acesso de meninas vítimas de estupro ao aborto legal.
Na prática, deputados bolsonaristas — aqueles que se dizem “defensores da vida” — decidiram que crianças violentadas devem ser obrigadas a levar adiante uma gravidez resultante de estupro.

São os mesmos que votam contra creches em tempo integral, contra o Bolsa Família, contra o auxílio gás e contra qualquer política que permita à mãe estudar, trabalhar e viver com dignidade.
Querem que uma menina de 11 anos seja mãe, mas não oferecem escola nem creche para o filho dessa tragédia.

Esses “machos escrotos” — travestidos de moral, fé e patriotismo — falam em “defender a família”, mas o que defendem é o controle sobre o corpo das mulheres e meninas.
Que “Deus” é esse que abençoa o estuprador e condena a vítima?
Que “pátria” é essa que sacrifica suas filhas em nome de uma moral podre e seletiva?


Sorriso é o retrato do Brasil

A “capital do agro” é também o retrato do país que finge não ver.
Onde o campo é verde, mas a alma é cinza.
Onde se investe em colheitadeiras, mas não em creches.
Onde o lucro corre solto, e o corpo das mulheres é deixado ao acaso.

Entre 2019 e 2024, Mato Grosso registrou mais de 2.300 casos de estupro de meninas e mulheres, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SESP).
A cada três dias, uma mulher é assassinada no estado.
E enquanto os números crescem, o debate público continua girando em torno da “família tradicional” — a mesma que finge que violência sexual é “assunto de polícia” e não de política.


Educação sexual salva vidas

O FBSP, a ONU e a OMS são unânimes: educação sexual nas escolas reduz drasticamente os casos de violência e abuso infantil.
Mas no Brasil, isso é tratado como “ideologia de gênero”.
Os mesmos que se dizem “contra o aborto” também são contra a educação sexual — e assim mantêm o ciclo da ignorância que alimenta o estupro.
O silêncio é o que perpetua o crime.


Conclusão: o país que naturalizou o horror

Sorriso é o nome perfeito para o retrato da vergonha.
Enquanto o agro cresce e o PIB brilha, o Brasil apodrece moralmente.
E os políticos que deveriam proteger a infância e a mulher seguem vendendo fé como mercadoria e justiça como discurso.

Em 2024, uma mulher foi estuprada a cada seis minutos.
E mesmo assim, os “defensores da vida” seguiram legislando contra as vítimas.
A pergunta que fica é simples e terrível: até quando o Brasil vai fingir que isso é normal?


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