
Entre piscadas de neon e promessas de fortuna, a ludopatia destrói famílias, apaga vidas e transforma o vício em rotina — é a doença silenciosa que já atinge milhões de brasileiros.
Pela Redação | A Voz do Povo em Tela
Eu me chamo R.S.V.. Não é o meu nome inteiro, mas é a minha vida inteira. Sou viciado em jogos de azar. Gosto do que chamam de jogo do tigrinho — aquela roleta de luzes e sons que promete sorte como quem vende chuva no deserto. Coloco cinquenta centavos por rodada e, quando a ansiedade aperta, deixo mil rodadas no automático. Tem dia que ganho cinquenta; no outro, perco cento e cinquenta. Não faço livro-caixa. Quem não tem saída sou eu.
Uso o limite da conta, o cartão de crédito, pego dinheiro emprestado — até com agiota. Procuro no Google bancos digitais que emprestam cinquenta, cem reais. Para mim, basta o sopro que mantém a brasa acesa até o fim do mês. Se não der, atraso a conta de água e de luz. Só não deixo cortar o wi-fi nem a internet do celular: sem elas, como eu jogaria? Vendi a moto. O carro o agiota levou. A casa está penhorada. E eu sigo jogando. Viciado. Apaixonado por ver o dinheiro desaparecer. O subconsciente domesticado para achar derrota um abraço. O jogo foi planejado para sempre vencer; eu, para sempre perder.
E não é só comigo. As telas sabem meu nome, meu humor, meu horário. Abro um link e lá está a propaganda. No Kwai, no TikTok, em todo lugar. Sempre alguém sorrindo ao lado de um prêmio improvável. Há uma máquina de atenção e desejo trabalhando enquanto eu durmo.
Em agosto de 2025, o Ministério da Fazenda informou que 17,7 milhões de brasileiros fizeram apostas de “quota fixa” apenas no primeiro semestre. O mesmo órgão afirmou ter bloqueado mais de 15 mil sites ilegais no período.
Os números são assustadores: o Banco Central aponta que os brasileiros chegam a apostar até R$ 30 bilhões por mês online. Mesmo com 94% retornando como prêmios, o impacto sobre as famílias é devastador: consumo comprimido, endividamento crescente e falências pessoais — principalmente entre os mais pobres.
Quando alguém diz “não tem dinheiro circulando na praça”, vale olhar para essa torneira aberta no bolso do povo. A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/MF) divulgou que, já descontados os prêmios, o faturamento das empresas reguladas no 1º semestre de 2025 foi de R$ 17,4 bilhões, com gasto médio de R$ 983 por apostador. É dinheiro que some da feira, da farmácia, do conserto da casa.
No mundo, o mercado global de apostas online foi estimado em US$ 78,7 bilhões em 2024 e deve chegar a US$ 153,6 bilhões até 2030. Um cassino portátil, 24 horas por dia, na palma da mão.
No Brasil, a legalização veio em ondas. A Lei 13.756/2018 abriu caminho para as apostas esportivas; a Lei 14.790/2023 enquadrou as de “quota fixa” e deu ao Ministério da Fazenda o poder de fiscalizar, cobrar impostos e exigir práticas de “jogo responsável”. Em 2025, o Senado aprovou um projeto para restringir propagandas com atletas, artistas e influenciadores — um freio tardio ao bombardeio publicitário que captura jovens e endividados.
Mesmo assim, o vício cresce. A USP estimou, em 2024, que o país tem cerca de 2 milhões de dependentes em jogos. O Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq) criou um ambulatório exclusivo para jogadores patológicos — e a demanda explodiu. O Ministério da Saúde incluiu a ludopatia nas ações da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com CAPS e CAPSad como portas de entrada. A OMS já reconhece o transtorno como doença na CID-11. Em português direto: é doença, tem tratamento — mas a propaganda corre mais rápido que a terapia.
Voltamos a R.S.V. — à minha voz. Eu não escuto conselhos. Não procuro o SUS. Repito que perder é bom. E sigo apertando o botão. A engrenagem vibra, as luzes giram, e a praça onde “não circula dinheiro” parece uma avenida quando se soma: até R$ 30 bilhões por mês apostados, R$ 17,4 bilhões de lucro líquido em seis meses, e um mercado ilegal que ainda morde metade do bolo e movimenta dezenas de bilhões fora do radar. Isso é drenagem de renda — um “imposto da sorte” pago por quem menos pode perder.
— “Mas e os impostos das bets, não voltam pra sociedade?” Voltam, em parte. A arrecadação federal com o setor superou R$ 5,6 bilhões entre janeiro e agosto de 2025, chegando a R$ 1,2 bilhão só em setembro, após o endurecimento das regras. É dinheiro, sim. Mas compare com as vidas moídas: arrecadar não compensa o que se perde na mente e no lar.
Os jogos não nasceram do nada. Eles se alimentam de três buracos: tempo livre precarizado, renda curta e a promessa de atalho. É a fantasia do elevador social instantâneo — uma piscadela que diz “você merece”. Quando perdemos, a culpa é nossa; quando ganhamos, o mérito é do método. A matemática, porém, é implacável: a casa sempre vence.
Eu — R.S.V. — estou no fundo do poço e chamo o poço de lar. Mas esta história não precisa terminar aqui. Para quem reconhece em si os meus passos, o caminho começa quebrando o silêncio. CAPS e CAPSad atendem pelo SUS. Vício é doença tratável, não vergonha incurável.
E para quem governa e regula, ficam as lições: fiscalização constante, repressão ao mercado ilegal e publicidade responsável — sem vender milagre em horário nobre. Para quem influencia, a pergunta é simples: quanto vale a comissão diante da família que desliga a geladeira?
A praça precisa de dinheiro circulando na vida, não apenas nas roletas do aplicativo.
Eu me chamo R.S.V.. E hoje escrevo para lembrar que cada “giro” tem custo. Na minha tela, a alegria piscava em neon. Na minha conta, ela vinha em vermelho.

Deixe um comentário