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A RESISTÊNCIA TAMBÉM SE ESCREVE

Uma terra indígena sitiada por facções, bunkers e escavadeiras — e um governo que faz vista grossa enquanto o ouro compra silêncio e destruição.

Pela Redação | A Voz do Povo em Tela

A Terra Indígena Sararé, no oeste de Mato Grosso, é o retrato da falência moral de um Estado que, ao fingir combater o crime, age como cúmplice. O território Nambikwara, onde vivem cerca de 250 indígenas, está sitiado: criminosos armados trocam tiros com helicópteros das forças de segurança, bunkers subterrâneos escondem faccionados e escavadeiras cavam a destruição onde antes havia floresta. O ouro é o combustível da guerra — e o silêncio das autoridades, o aval.

Desde agosto de 2025, a Operação Xapiri-Sararé tenta retomar o controle da região. Mais de 170 escavadeiras hidráulicas, 490 acampamentos e 361 motores de garimpo foram destruídos, gerando um prejuízo de R$ 226 milhões aos invasores. Mas os resultados são temporários: o crime se reorganiza rapidamente, apoiado em tecnologia e logística de guerra. Durante as incursões, os agentes encontraram 14 bunkers subterrâneos e um arsenal com fuzis e espingardas calibre 12. As forças do Estado recuam ao fim de cada operação, e o território volta ao domínio das facções.

Enquanto isso, os Nambikwara enfrentam o colapso de seu modo de vida. A contaminação por mercúrio já atingiu rios e peixes; os animais desapareceram, e a caça virou lembrança. “Os garimpeiros espantaram os bichos ou mataram todos. Até os peixes morreram”, relata Tainá Katitaurlu, filha do cacique. A fome avança, a floresta adoece e a morte ronda quem se opõe ao garimpo. Lideranças vivem sob ameaça, e dezenas de assassinatos foram registrados desde 2023.

A facção que domina Sararé não nasceu ali — foi convidada pela omissão do poder público. O Comando Vermelho viu no ouro um negócio mais rentável e menos arriscado que o tráfico. Montou um império: “currutelas” com bares, prostíbulos, internet via satélite e rádios para monitorar a polícia. O garimpo ilegal virou empresa, com hierarquia, contabilidade e armamento pesado. E o Estado, em vez de garantir a lei, prefere posar de gestor “amigo do produtor”, fingindo ignorar que o ouro do crime financia armas, corrupção e morte.

O governador de Mato Grosso, que adora se apresentar como defensor da economia e do agronegócio, silencia sobre o garimpo que financia o terror em território indígena. Fala em “liberdade econômica”, mas o que há é liberdade para matar e poluir. Quando o poder público se omite, o garimpeiro se transforma em governo, e a Constituição vira poeira sob a pá mecânica.

A Defensoria Pública da União alertou, em abril de 2025, que sem presença permanente do Estado a desintrusão é apenas teatro. O documento recomendava um plano de ação de longo prazo, com bases fixas, proteção às lideranças e recuperação ambiental. Nada foi feito. As máquinas voltam, os rios morrem, o ouro flui — e o governo finge não ver.

A contaminação do Rio Guaporé já cruzou a fronteira e ameaça o Parque Noel Kempff, na Bolívia, patrimônio mundial da Unesco. Sararé é uma ferida aberta que atravessa fronteiras. Cada gota de mercúrio que escorre é uma sentença contra a Amazônia e os povos que a defendem.

Quando o Estado se comporta como garimpeiro, o crime se fantasia de governo. E o povo indígena, dono legítimo da terra, torna-se estrangeiro em seu próprio chão.


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