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A RESISTÊNCIA TAMBÉM SE ESCREVE

Enquanto o ex-prefeito posa de herói, a sociedade sinopense reage: por que apoiar quem vem de fora e desprezar quem construiu o ensino superior no Norte de Mato Grosso?

Pela Redação | A Voz do Povo em Tela

O Ministério da Educação (MEC) publicou, nesta terça-feira (28), a Portaria nº 778/2024, que autoriza a criação de um curso de Medicina particular em Sinop, no norte de Mato Grosso. A graduação será ofertada pela Faculdade de Ciências da Saúde Oswaldo Fortini (Faciso), instituição sediada em Minas Gerais, com 60 vagas anuais.

A notícia, que deveria ser motivo de orgulho local, virou polêmica. Isso porque o ex-prefeito de Sinop e ex-deputado federal Nilson Leitão correu às redes sociais para se declarar “líder do projeto”, comemorando a chegada da instituição mineira como se fosse um feito pessoal. Ao seu lado, o senador Jayme Campos também celebrou a autorização, destacando articulação junto aos ministros Camilo Santana (Educação) e Alexandre Padilha (Saúde).

O problema é que, enquanto Leitão comemora o sucesso de uma faculdade de fora, a Fasipe, instituição genuinamente sinopense, segue há anos aguardando o mesmo aval do MEC para abrir seu próprio curso de Medicina — um projeto planejado, estruturado e com base em mais de duas décadas de contribuição ao desenvolvimento educacional e à saúde do estado.


A Fasipe: quem construiu o caminho que Nilson Leitão esqueceu

Fundada em Sinop em 2002, a Fasipe cresceu quando poucas instituições ousavam investir na região. Hoje, é referência estadual, com campi em Cuiabá, Rondonópolis, Sorriso, Lucas do Rio Verde e Tangará da Serra. É responsável pela formação de milhares de profissionais da saúde — enfermeiros, fisioterapeutas, biomédicos, psicólogos, dentistas — e mantém clínicas-escola e o Hospital Escola, que atendem a população local diariamente.

Em 2022, a instituição protocolou junto ao MEC o projeto de criação de seu curso de Medicina, integrando ensino, pesquisa e assistência pública. O investimento foi milionário, com estrutura hospitalar própria e parcerias consolidadas com a rede municipal de saúde. Mesmo assim, o processo segue parado em Brasília.

Enquanto isso, a instituição mineira Faciso — sem histórico algum em Sinop — conseguiu aprovação em tempo recorde.


A reação de Sinop: “Quem trabalha pela cidade é esquecido”

A postura de Nilson Leitão acendeu a revolta de parte da sociedade sinopense. Educadores, empresários e lideranças locais classificam como “traição política” a preferência do ex-prefeito por uma faculdade de outro estado.

“É fácil tirar foto com o diploma dos outros. Difícil é ficar ao lado de quem lutou, investiu e acreditou na cidade quando ninguém acreditava”, afirmou um empresário do setor educacional.

Outro representante foi mais direto: “Nilson tem o hábito de aparecer nas conquistas dos outros. A Fasipe é parte da identidade de Sinop. Ignorar isso é como cuspir no prato onde comeu.”


Complexo de vira-lata e ambição eleitoral

A decisão de apoiar uma faculdade mineira é vista por analistas como reflexo do velho complexo de vira-lata — o hábito de valorizar o que vem de fora e desprezar o que é da terra. Nilson Leitão, agora pré-candidato a deputado federal, tenta se apresentar como articulador de um feito que na prática exclui os protagonistas locais.

A cidade que ele ajudou a construir com o discurso de “orgulho sinopense” agora assiste a um ex-prefeito bater palmas para uma instituição que nada tem de regional.

O episódio também expõe a fragilidade da representatividade política no norte do estado. Quando quem teve poder e influência prefere favorecer grupos externos, a região segue submissa a decisões tomadas longe daqui — em Brasília ou em Minas Gerais.


A pergunta que Sinop faz

Por que o curso de Medicina da Fasipe, com estrutura, tradição e compromisso social, segue travado no MEC?
Por que Nilson Leitão, que diz defender Sinop, escolheu exaltar o que vem de fora?
E, principalmente: até quando a cidade vai permitir que o protagonismo local seja trocado por palanque político?


Sinop não precisa de heróis de palco. Precisa de líderes que lutem pelos projetos da cidade, e não por holofotes eleitorais. O curso de Medicina é símbolo de futuro, mas o futuro só faz sentido se nascer daqui, das mãos de quem construiu, acreditou e permanece investindo na região.

A população sinopense sabe quem trabalhou e quem apenas apareceu para a foto.


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