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A RESISTÊNCIA TAMBÉM SE ESCREVE

O estado que bate recordes de produção agrícola e exportação é o mesmo onde 3,9% da população passa fome — índice que envergonharia qualquer nação.

Pela Redação | A Voz do Povo em Tela

Se o Brasil comemora a saída do Mapa da Fome, segundo a FAO, Mato Grosso não tem motivos para celebrar. Durante o evento Cibus Veritas, realizado na Procuradoria-Geral de Justiça nesta sexta-feira (19), a professora Patrícia Nogueira, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), foi taxativa: 3,9% da população do estado vive em situação de subalimentação, um índice superior ao limite de 2,5% considerado aceitável pela FAO. Isso significa que, se fosse um país, Mato Grosso ainda estaria listado entre as nações onde a fome é uma chaga permanente.

E aqui está a contradição mais cruel: Mato Grosso é o maior produtor de grãos do Brasil, responsável por cerca de 30% da soja nacional e quase 35% do milho. Em 2024, a safra do estado ultrapassou 100 milhões de toneladas de grãos, volume suficiente para alimentar dezenas de países. No entanto, essa abundância não se reflete na mesa da população local. O que garante lucro bilionário para o agronegócio não garante comida para as famílias que vivem à margem.

A também professora da UFMT, Márcia Montanari, destacou que cerca de 70% das terras agricultáveis do estado são destinadas a commodities de exportação. Em alguns municípios, esse percentual chega a 98%, deixando quase nenhum espaço para a produção de alimentos básicos. Enquanto Mato Grosso exporta soja para a China e milho para a Europa, muitas famílias dependem de arroz, feijão, frutas e hortaliças importados de outros estados brasileiros.

Esse modelo alimenta o que as pesquisadoras chamam de “paradoxo da insegurança alimentar”: de um lado, o prato vazio da fome; de outro, a mesa cheia de ultraprocessados baratos, ricos em sódio e açúcar, que levam ao avanço da obesidade e de doenças crônicas. Um paradoxo que também é racista e desigual, porque atinge com mais força mulheres, negros, desempregados e populações rurais.

O impacto do uso intensivo de agrotóxicos também agrava a equação. Mato Grosso lidera o ranking de consumo desses venenos no país, com milhões de litros despejados todos os anos nas lavouras de soja, milho e algodão. A produção bilionária contamina rios, solos e até a água potável, criando uma bomba-relógio para a saúde pública.

A soberania alimentar só será garantida quando o país oferecer comida de qualidade para todos, e isso depende de decisões políticas, sociais e econômicas”, afirmou Patrícia Nogueira. Ou seja, não basta bater recordes de exportação. O desafio é garantir que a riqueza produzida no campo não continue concentrada em poucas mãos enquanto o povo paga a conta com fome, obesidade e doenças.

O caso de Mato Grosso expõe o drama do Brasil: um país que pode ser potência alimentar, mas escolhe ser exportador de commodities, deixando milhões sem acesso a alimentos saudáveis. Enquanto navios abarrotados de soja e milho deixam os portos, famílias ao lado das lavouras enfrentam a insegurança alimentar. É a face mais brutal do sistema que concentra riqueza e distribui miséria.

Se fosse um país, Mato Grosso não estaria fora do Mapa da Fome. Mas sendo parte do Brasil, permanece como símbolo de uma contradição histórica: o gigante da produção que nega comida ao seu próprio povo.


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