
Pregam transparência nas ruas, mas no Congresso blindam a si mesmos com o manto do sigilo.
Pela Redação | A Voz do Povo em Tela
Enquanto o discurso bolsonarista segue inflamado nas redes sociais e nas praças do Brasil, defendendo o voto impresso nas urnas eletrônicas como solução milagrosa contra uma suposta fraude eleitoral que nunca foi comprovada, na Câmara dos Deputados a prática mostrou-se outra. Nesta semana, a chamada PEC da Blindagem foi aprovada com mais de 300 votos favoráveis — a maioria deles de parlamentares bolsonaristas — restabelecendo o voto secreto em casos que envolvem a abertura de processos criminais ou a prisão de deputados e senadores.
A contradição não poderia ser mais gritante. Para o povo, exigem exposição total, papelzinho saindo da urna, “transparência até o fim”. Para si mesmos, escolhem a sombra confortável do anonimato, onde o eleitor não poderá saber quem votou para proteger corruptos ou blindar colegas suspeitos. É a velha máxima do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, agora carimbada em ata oficial do Congresso Nacional.
O discurso do voto impresso acoplado à urna eletrônica sempre foi usado como combustível político para inflamar a base radicalizada, colocando em dúvida a segurança do sistema eleitoral brasileiro — reconhecido internacionalmente pela sua confiabilidade. Mas quando o assunto passa a ser o controle sobre eles mesmos, a retórica some. Transparência, só quando serve para atacar adversários; nunca quando o espelho aponta para suas próprias contradições.
A aprovação da PEC da Blindagem não apenas restaura o voto secreto, mas também dificulta que parlamentares sejam processados criminalmente ou presos sem autorização do Legislativo. Em outras palavras: um salvo-conduto para que políticos investigados ou envolvidos em escândalos possam escapar da Justiça com a ajuda de seus pares, protegidos pelo sigilo do voto.
O resultado é devastador para a democracia. Ao mesmo tempo em que alimentam a narrativa de que o povo precisa vigiar cada voto na urna, blindam-se contra qualquer vigilância pública sobre como atuam quando a própria pele está em jogo. É a democracia seletiva: transparência para o povo, sigilo para os “donos do poder”.
A ironia é inevitável. Os “patriotas” que marcharam pedindo voto impresso agora aplaudem de pé o voto secreto que os protege. Os mesmos que gritavam contra “a escuridão do sistema” se refugiam na escuridão de suas próprias conveniências. Para quem ainda insiste em acreditar no discurso bolsonarista, fica a pergunta: onde está a coerência?
No fim, a resposta é simples: não há coerência. O que existe é um projeto de poder, sustentado por hipocrisia e manipulação. O voto impresso virou apenas palanque. O voto secreto, este sim, virou garantia de impunidade.

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