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A RESISTÊNCIA TAMBÉM SE ESCREVE

A direita chora por um ídolo americano, mas aplaudiu o ódio de Bolsonaro e silenciou diante da violência que matou e ameaçou brasileiros progressistas.

Pela Redação | A Voz do Povo em Tela

A morte do ultraconservador norte-americano Charlie Kirk desencadeou uma onda de histeria seletiva na extrema direita brasileira. Prefeitos e parlamentares bolsonaristas, como Abílio Júnior, de Cuiabá, e o deputado Nikolas Ferreira, decidiram transformar a tragédia em tribunal político, exigindo a exoneração sumária de servidores e a demissão de trabalhadores que ousassem manifestar opiniões consideradas “favoráveis” ao ocorrido.

Abílio publicou em suas redes: “Atenção servidor comissionado, cargo de livre nomeação. Se comemorar o que aconteceu com Charlie Kirk, será exonerado!”. Já Nikolas Ferreira usou seus perfis digitais como palanque inquisitório, expondo pessoas e pressionando empresas privadas a punirem funcionários.

A encenação da moralidade, porém, cai por terra diante da memória recente. Em 2018, em Rio Branco, Jair Bolsonaro declarou diante de uma multidão que queria “fuzilar a petralhada do Acre”. Um discurso de ódio explícito, transformando adversários políticos em inimigos a serem eliminados. Onde estavam Abílio e Nikolas nesse momento? Não houve nota de repúdio, nem indignação seletiva. Houve aplausos, risos e a normalização da violência.

O extremismo não ficou restrito aos palanques. Em Sinop, o líder do PT no município, Ney da Saúde, viveu um episódio que escancara o efeito real da retórica bolsonarista. Em 2022, num sábado de festa em que o Flamengo havia acabado de conquistar um título e a Avenida Tarumãs estava tomada por torcedores, Ney dirigia seu carro quando foi emparelhado por outro veículo. De dentro, um bolsonarista sacou uma pistola e apontou. Ney reagiu imediatamente: fechou o carro do agressor e desceu para o enfrentamento. Diante da coragem, os ocupantes entraram em pânico e começaram a gritar para fugir dali. A cena foi presenciada por dezenas de pessoas, testemunhas oculares de um fascista armado intimidando um líder político.

Após a derrota de Bolsonaro, Ney recebeu dezenas de ligações com novas ameaças de morte. Optou por não registrar boletim de ocorrência, convicto de que o extremismo não se combate apenas com burocracia policial, mas com enfrentamento político e resistência popular.

Para entender a seletividade dessa indignação, é preciso lembrar quem foi Charlie Kirk. Fundador da organização ultraconservadora Turning Point USA, dedicou-se a recrutar jovens para a causa da extrema direita. Pregava o chamado “nacionalismo cristão”, defendendo a fusão da política com dogmas religiosos e negando direitos de minorias. Kirk atacava políticas de diversidade, equidade e inclusão, acusando-as de “anti-brancas”; combatia direitos LGBTQIA+, afirmando que só existem “dois gêneros”; e incentivava uma visão xenófoba sobre imigração. Esse ideário ameaça o campo progressista porque mina direitos civis, estimula perseguições e normaliza a violência contra minorias.

Apesar de se apresentarem como fervorosos cristãos, Abílio Brunini e Nikolas Ferreira transformam a Bíblia em palanque para justificar seus ataques políticos. Ambos são ligados a igrejas evangélicas e vivem repetindo o bordão “Deus, Pátria e Família”, mas suas atitudes desmentem as próprias Escrituras que dizem seguir. Ao exigir demissões em massa de servidores e trabalhadores que não concordam com o culto a Charlie Kirk, eles ignoram o mandamento “amai ao próximo como a ti mesmo” e substituem a compaixão pela perseguição. Jesus, em sua passagem pela Terra, não pregou o ódio, nem pediu a exclusão de quem pensava diferente. Pelo contrário: acolheu pobres, marginalizados, mulheres, estrangeiros e perseguidos pelo poder. Se estivesse entre nós hoje, Jesus estaria ao lado dos que lutam por justiça social, não dos que clamam por censura e linchamento digital. A pergunta é inevitável: Jesus seria da extrema direita, pregando fuzilamento e ódio, ou seria um socialista que caminhava com os excluídos?

Quando a vereadora Marielle Franco foi assassinada em 2018, e quando o guarda municipal Marcelo Arruda foi executado em 2022 por um bolsonarista em Foz do Iguaçu, não houve campanhas de demissão, nem indignação dos que agora se dizem paladinos da vida. Houve silêncio, deboche e relativização.

Não existe democracia com indignação seletiva. Quem protege seus ídolos e silencia diante da violência contra adversários não defende a vida nem a liberdade — apenas o privilégio de um autoritarismo disfarçado de moralidade.


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