
Oito anos viram regra fixa: discurso anticorrupção cai por terra enquanto bolsonarismo trabalha para abrir caminho ao retorno de velhos conhecidos
Pela Redação | A Voz do Povo em Tela
O Senado Federal aprovou, por 50 votos a 24, o Projeto de Lei Complementar 192/2023, que altera a contagem do prazo de inelegibilidade da Lei da Ficha Limpa. O texto fixa em oito anos o período de impedimento para políticos condenados, mas antecipa o início da contagem para momentos como cassação, renúncia ou condenação em segunda instância — e não mais após o cumprimento da pena.
Na prática, a mudança funciona como um alívio para quem já tem ficha suja, reduzindo o tempo de afastamento da vida pública. O projeto também cria um teto de 12 anos em casos de múltiplas condenações, encerrando a possibilidade de inelegibilidade acumulada por tempo indeterminado.
E aí vem a ironia: os mesmos bolsonaristas que viviam gritando contra a corrupção, vendendo a imagem de “paladinos da moralidade”, agora defendem justamente o contrário. Trabalharam lado a lado para flexibilizar a principal lei que impediu o retorno de políticos condenados ao poder. No discurso, bradam contra ladrões; na prática, criam a escada para os “amigos” voltarem mais cedo.
Entre os possíveis beneficiados estão o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, e o ex-deputado Eduardo Cunha, que poderiam concorrer já em 2026. A cereja do bolo: o projeto é de autoria da deputada Dani Cunha (União-RJ), filha de Eduardo Cunha, mostrando que a política brasileira não perde a vocação de misturar interesse pessoal com manobra legislativa.
A emenda de Sérgio Moro (União-PR) garante que, em crimes gravíssimos — como corrupção, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, homicídio ou crimes sexuais —, a contagem só começará após o cumprimento da pena. Ainda assim, o estrago está feito: a essência da Lei da Ficha Limpa, construída em 2010 com mais de 1,3 milhão de assinaturas populares, foi atacada pelos mesmos que vivem se dizendo defensores da moral e dos bons costumes.
O projeto agora segue para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Se aprovado, terá efeito imediato e pode devolver aos palanques políticos que a população já havia mandado para escanteio. O bolsonarismo, que se dizia guardião da moral, mostra mais uma vez que seu compromisso não é com o combate à corrupção — mas com a perpetuação do poder, mesmo que para isso seja preciso reabrir as portas para os velhos caciques da política.
No fundo, a lógica é simples: contra os inimigos, a lei pesa. Para os aliados, a regra afrouxa. Essa é a “nova moralidade” bolsonarista, feita sob medida para salvar os seus e enganar os outros.

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