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Soja, riqueza concentrada e latifúndio: quando o agro engorda poucos e deixa migalhas para muitos

por JC | A Voz do Povo em Tela

Milhares de pessoas de um Brasil precarizado, desindustrializado e desigual migram para o estado de Mato Grosso em busca das oportunidades que a cadeia da soja, inserida no mercado mundial, trouxe para a região. Melhores ofertas de trabalho, serviços e salários criam um deslumbramento inicial que dificulta a percepção de um cenário oculto: profunda desigualdade e dominação elitista, cujo maior resultado é o engessamento político.

Quando observamos os números e o volume de riqueza concentrada nas mãos de poucos, percebemos que essa aparente chance de ascensão social não passa de migalhas quando comparada às fortunas gigantescas dos grandes proprietários de terra. São eles que vivem em condomínios de luxo erguidos com o suor de trabalhadores precarizados, compram imóveis em Balneário Camboriú e Miami e movimentam seus capitais junto a banqueiros e grandes empresários associados ao setor.

As terras agrícolas, principal riqueza do estado, foram apropriadas por uma minoria de latifundiários, sustentados pela isenção tributária do Estado brasileiro em consórcio com o capital financeiro internacional. À maioria trabalhadora, sobram apenas os respingos dessa abundância.

Esse é o retrato da continuidade do latifúndio histórico no Brasil: um formato político e social que mantém o país como colônia exportadora de produtos primários, enquanto uma elite mínima garante a perpetuação dessa relação desigual.

Com base nessa estrutura, o poder político e cultural também fica concentrado nas mãos dos latifundiários e de seus representantes em todas as esferas institucionais. Isso se reflete nos resultados eleitorais e no rebaixamento do debate político cotidiano.

Portanto, a concentração fundiária e das riquezas materiais é o fator mais decisivo da desigualdade social, política e econômica em nosso estado.

O povo de Mato Grosso não deve se contentar com migalhas. Essa luta regional, embora difícil, pode ser fortalecida pelas forças populares de todo o Brasil. Seu triunfo é condição necessária para que se torne realidade um direito fundamental: o uso social da terra e das riquezas produzidas em nosso território. Devemos perseguir o preceito constitucional de que a terra deve cumprir sua função social.

Avançar na democratização do acesso às riquezas da soja, por meio da tributação justa, da industrialização e, sobretudo, da reforma agrária, é o caminho indispensável. Essa deve ser a principal unidade de luta do povo.

Não enfrentar essa estrutura significa manter o poder político nas mãos das elites, reduzindo qualquer disputa a algo simbólico e passageiro. Não devemos nos tornar reféns de organizações políticas que se recusam a romper com esse modelo e que, nas eleições, se alinham a partidos da ordem em troca de privilégios fisiológicos e representatividade reduzida. Concretamente, isso deve se refletir na escolha criteriosa de nossas lideranças e quadros políticos — da militância às eleições —, privilegiando aqueles que realmente representam as pautas fundamentais e majoritárias do povo.

O agronegócio deve ser do povo brasileiro e para o povo brasileiro. Só assim será possível utilizar toda essa potência econômica na promoção da igualdade, no fomento à industrialização e no fortalecimento da classe trabalhadora, da mesma forma que historicamente se atribui ao uso do petróleo.

Trabalhadores e trabalhadoras, esse é o único caminho efetivo para o fortalecimento político do campo popular majoritário e da classe trabalhadora.

Em agosto de 2025, mais de 225 mil famílias em todos os 142 municípios de Mato Grosso recebem o Bolsa Família. Considerando a média nacional — cada família beneficiária reúne em torno de três pessoas — isso significa aproximadamente 586 mil mato-grossenses diretamente amparados pelo programa. Em outras palavras, cerca de 16% da população do estado (3,66 milhões, Censo 2022) depende do Bolsa Família para sobreviver. É o retrato de um território de baixa densidade demográfica, com apenas 4 habitantes por quilômetro quadrado, e de alta concentração de renda, onde um estado que gera tanta riqueza ainda convive com a necessidade massiva de transferência de renda para garantir o básico.

Enquanto o agro servir apenas aos latifundiários, Mato Grosso seguirá sendo o “eldorado” de poucos e a prisão política de muitos.


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