
Espaço público de lazer pode virar propaganda de “Caçadores de Liberdade” e levantar polêmica sobre uso do patrimônio natural
Pela Redação | A Voz do Povo em Tela
O insólito não tem limites: a deputada federal Coronel Fernanda (PL-MT) apresentou o Projeto de Lei 3116/2025, propondo que a cachoeira da Gleba Mercedes, em Sinop, seja oficialmente rebatizada como “Cachoeira Caçadores de Liberdade”. O nome é uma homenagem ao movimento Legendários, conhecido por promover atividades de “autoconhecimento e espiritualidade” no local. O projeto, protocolado em 30 de junho, prevê que a denominação seja usada em mapas, placas, documentos oficiais e até materiais turísticos do governo federal.
Um espaço público transformado em palco religioso
O problema começa no ponto mais básico: trata-se de uma cachoeira pública, patrimônio natural de todos, e não de um templo privado. Ao carimbar o espaço com o nome de um movimento específico, a proposta confunde Estado e religião. Num país que se diz laico, o projeto soa como tentativa de capturar um bem coletivo e vinculá-lo a uma identidade religiosa que não representa toda a sociedade.
Turismo, lazer e diversidade ameaçados
Sinop precisa de investimentos em infraestrutura turística, preservação ambiental e lazer popular, não de iniciativas que transformam um ponto de encontro em ferramenta de marketing espiritual. O risco é evidente: uma cachoeira que deveria ser plural, acessível a todos, pode virar símbolo de exclusão, identificado com um único grupo. O turismo, que poderia valorizar a diversidade cultural e natural da região, ficaria reduzido a uma narrativa de caráter religioso-ideológico.
O movimento Legendários e as controvérsias
O movimento homenageado, embora propagandeado como espaço de transformação, já foi alvo de críticas. Reportagens apontam para práticas elitistas, atividades arriscadas e uma visão engessada de masculinidade. É legítimo que seus membros busquem experiências espirituais — mas daí a transformar esse nome em marca oficial de um patrimônio natural vai uma longa distância. É como se o poder público abrisse mão da neutralidade para endossar uma seita.
O que Sinop realmente precisa
Enquanto o Congresso gasta energia com batismos ideológicos de cachoeira, Sinop sofre com problemas sérios: falta de áreas públicas de lazer bem cuidadas, precarização da saúde, ruas esburacadas, bairros abandonados. A população precisa de políticas públicas concretas, não de projetos folclóricos que mais parecem cortina de fumaça para desviar a atenção dos verdadeiros desafios.
Memória e pertencimento
Os nomes de nossos espaços públicos deveriam contar a história do povo, celebrar a cultura local, valorizar a natureza e a identidade regional. Em vez disso, a proposta de Coronel Fernanda cria um precedente perigoso: o de transformar patrimônio coletivo em propaganda religiosa. O que hoje é a “Cachoeira Caçadores de Liberdade” pode abrir caminho para outros espaços públicos se tornarem palco de homenagens privadas.
Em tempos de crise e de desafios sociais enormes, fica a pergunta: que tipo de liberdade é essa que tenta se impor até sobre uma cachoeira?

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