
Em 1964, o silêncio era imposto com censura, tortura e morte. Hoje, quem grita “ditadura” volta para casa postando selfie no Instagram.
Pela Redação | A Voz do Povo em Tela
Nos últimos anos, um coro dissonante ecoa nas ruas e redes sociais: “Estamos vivendo uma ditadura!”. O curioso é que esses gritos vêm justamente de pessoas que, após fazerem protestos, publicam vídeos no TikTok e selfies no Instagram, acusando o governo de perseguição política.
Mas para quem viveu a ditadura militar de 1964, a história é outra — e muito mais sombria. Em 13 de dezembro de 1968, o país mergulhou no seu período mais autoritário com a edição do AI-5 (Ato Institucional nº 5). Esse decreto fechou o Congresso Nacional, cassou mandatos de parlamentares, suspendeu direitos políticos, censurou jornais, músicas, peças teatrais e até conteúdos escolares. Qualquer manifestação considerada “subversiva” podia levar à prisão — sem direito a defesa.
Naqueles anos, a simples posse de um livro ou música que não agradasse aos militares poderia significar tortura. A imprensa era obrigada a submeter todas as matérias à censura prévia. Se um jornal ousasse publicar algo não aprovado pelo regime, era fechado. Artistas eram exilados, professores perseguidos, estudantes desapareciam.
O Brasil viveu 21 anos de um regime que não tolerava o contraditório. Quem ousasse questionar o governo podia ser preso, espancado, eletrocutado ou simplesmente “sumir” sem deixar rastros. Isso não era exagero — era a rotina de milhares de brasileiros.
Agora, em pleno século XXI, vemos bolsonaristas pedindo “AI-5 já” quando perdem uma eleição e, ao mesmo tempo, dizendo viver numa “ditadura” porque seus líderes foram presos após cometer crimes. A ironia é que, numa ditadura de verdade, eles sequer poderiam fazer essas acusações em público.
E não para por aí: esses mesmos que gritam fraude nas urnas só lembram de contestar o resultado quando a derrota é para o presidente Lula. Em 2022, ninguém questionou a eleição de deputados federais, senadores e governadores — inclusive filhos de Bolsonaro e aliados do centrão e da extrema direita. Dois anos depois, em 2024, prefeitos e vereadores bolsonaristas foram eleitos nos quatro cantos do país, também pelas urnas eletrônicas, e ninguém gritou “fraude”. Parece que o problema das urnas só aparece quando a contagem não entrega o resultado que eles querem. Até quando vai durar essa encenação? Até quando vão fingir que não sabem perder e inventar conspirações para justificar a derrota?
Na ditadura, gritar “fora presidente” significava desaparecer. Hoje, significa ganhar likes e compartilhamentos. Na ditadura, publicar um texto contra o governo era impossível. Hoje, significa participar de um debate nas redes sociais. Na ditadura, atos públicos eram proibidos e reprimidos com violência. Hoje, são autorizados e, quando ilegais, garantem até a presença de advogados para defender quem os promove.
Ditadura não é quando o seu político favorito é preso após um processo judicial. Ditadura é quando você não pode nem falar sobre isso. Quem viveu 1964 sabe: liberdade não é perfeita, mas perder a democracia é perder tudo.
E a grande contradição é que muitos que hoje gritam por liberdade já pediram o retorno do regime que, no passado, calou, prendeu, torturou e matou — inclusive pessoas que nem militavam politicamente, mas ousaram discordar.

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