
Jornadas de até 22 horas, sem água, sem folga e dormindo no chão: a escravidão moderna segue firme no coração do agronegócio mato-grossense
Pela Redação | A Voz do Povo em Tela
Enquanto o agronegócio brasileiro estampa comerciais dizendo ser “pop” e “sustentável”, a realidade nas obras que abastecem essa máquina de lucro é brutal, desumana e criminosa. Em pleno 2025, 563 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão na construção de uma usina de etanol no município de Porto Alegre do Norte (MT), a cerca de 1.300 km de Cuiabá.
A operação foi divulgada nesta quinta-feira (7) pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), e revelou um cenário de exploração extrema: jornadas de até 22 horas por dia, sem folgas, sem acesso a água potável, sem energia elétrica, alimentação inadequada, e trabalhadores dormindo em quartos abafados, no chão ou em mesas de madeira. Muitos deles vieram do Maranhão, Piauí e Pará em busca de uma oportunidade — e encontraram o inferno.
Segundo os auditores, o gatilho para o início da investigação foi um incêndio provocado pelos próprios trabalhadores no final de julho, em um gesto de desespero e revolta contra as condições degradantes. Parte dos alojamentos improvisados foi destruída pelo fogo — mas não antes de chamar a atenção das autoridades.
A empresa responsável pela obra, que ainda não se manifestou publicamente, será responsabilizada pelas violações. Mas a pergunta que se impõe é: por quanto tempo mais o Brasil aceitará a naturalização do trabalho escravo em nome do “progresso”?
O número de pessoas resgatadas nessa única operação representa cerca de um quarto de todos os casos de escravidão moderna registrados no Brasil em 2024. E mesmo assim, o caso parece estar sendo tratado como apenas mais um entre tantos outros.
Não é. Isso é um escândalo.
É a prova de que o modelo econômico que domina o centro-oeste e boa parte do país ainda se sustenta sobre a dor alheia. Um modelo que terceiriza a responsabilidade, lucra com a miséria, e se recusa a enxergar a humanidade por trás da mão de obra que ergue suas obras.
O agro é pop. O agro é tech. E o agro também escraviza.
Não se trata de falha pontual. Trata-se de um sistema inteiro baseado na desigualdade, na omissão e na impunidade.
A construção da usina de etanol deveria representar modernidade, inovação e sustentabilidade. Em vez disso, revela que a escravidão contemporânea está viva, operacionalizada e institucionalizada — com CNPJ, contrato e propaganda bonita.
Até quando?

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