Agronegócio e indústria de defesa, pilares do bolsonarismo, foram deixados de fora da lista de isenções tarifárias dos EUA; estratégia do governo Lula evita danos maiores à economia
Pela Redação | A Voz do Povo Em Tela

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou neste mês um tarifaço histórico sobre produtos brasileiros, atingindo alíquotas de até 50%. A medida, formalizada por ordem executiva da Casa Branca, afetaria quase toda a pauta exportadora do Brasil. No entanto, após forte pressão diplomática e econômica, o governo norte-americano recuou parcialmente e retirou 694 produtos da lista original de taxação.
Ainda assim, os setores mais prejudicados permanecem sendo justamente aqueles que sustentam politicamente o ex-presidente Jair Bolsonaro: o agronegócio e a indústria de defesa. Nenhum dos dois entrou na lista de isenções publicada no Anexo I do documento da Casa Branca, que contempla apenas produtos considerados estratégicos para a economia e segurança dos EUA.
O que ficou de fora do tarifaço?
Entre os produtos poupados da nova tarifa estão sucos de laranja, polpa de madeira, celulose, combustíveis, fertilizantes, minérios de ferro, aço, peças de aeronaves civis, castanhas e metais preciosos. Esses itens somam 43,4% do valor total exportado pelo Brasil em 2024, segundo dados da Amcham (Câmara Americana de Comércio para o Brasil).
Somente o setor de combustíveis, que exportou mais de US$ 8,5 bilhões ao longo do ano passado, teve 76 itens retirados da taxação. O setor de aviação civil também foi beneficiado, com 22 produtos isentos, somando US$ 2 bilhões. Ao todo, as isenções representam US$ 18,4 bilhões em produtos, de um total de US$ 42,3 bilhões exportados pelo Brasil aos EUA em 2024.
E o que continua sendo tarifado?
Fora das isenções, continuam sendo atingidos os produtos com maior valor agregado, bens de consumo, itens industrializados e, principalmente, carnes e café — dois dos carros-chefe do agronegócio brasileiro. Esses setores, fortemente ligados ao bolsonarismo, agora sofrem diretamente os efeitos da política econômica de Trump.
A medida gerou insatisfação entre empresários brasileiros que apoiaram Bolsonaro e tinham expectativa de tratamento privilegiado com a volta de Trump ao poder. O que se vê, no entanto, é o oposto: a retaliação vem justamente sobre setores que ajudaram a alimentar o discurso antidemocrático nos últimos anos.
Estratégia do governo Lula surte efeito
Mesmo com a gravidade do tarifaço, a diplomacia brasileira se moveu com rapidez. O governo Lula escalou o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, para liderar as articulações. Com um perfil mais discreto, Alckmin se reuniu com representantes de big techs e empresários de diferentes setores, buscando pressionar o governo Trump sobre os prejuízos bilaterais causados pela medida.
Alckmin também conversou diversas vezes com o secretário de Comércio dos EUA, Wilbur Ross, que passou a admitir durante a semana que algumas exclusões poderiam ser feitas — o que de fato ocorreu com a retirada dos 694 produtos.
Medida ainda pode mudar
Apesar do recuo parcial, o início da aplicação do tarifaço foi adiado para o dia 6 de agosto, o que abre nova janela para negociação. A expectativa é de que mais produtos possam ser retirados da lista tarifada, especialmente aqueles com alto impacto sobre o mercado norte-americano, como carnes e derivados do agronegócio brasileiro.
Ironia do destino
A situação escancara uma ironia política. Setores que impulsionaram o bolsonarismo, alimentaram ataques ao STF, defenderam fake news e flertaram com o autoritarismo agora colhem os frutos amargos da retaliação comercial do seu maior ídolo internacional. A retórica de que Trump e Bolsonaro “protegeriam o agro” se desfaz diante dos fatos.
Enquanto isso, o governo Lula age com responsabilidade, defendendo os interesses nacionais e articulando com seriedade soluções para evitar danos maiores à economia brasileira.

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