A lógica da autodepreciação entre os mais pobres sustenta a desigualdade e protege os verdadeiros responsáveis pela exclusão social, como alerta o sociólogo Jessé Souza em “A Elite do Atraso”.
Pela Redação | A Voz do Povo Em Tela

“O pobre é ensinado a odiar o pobre, para nunca odiar o rico.” A frase do sociólogo Jessé Souza, em sua obra A Elite do Atraso, resume com precisão uma das engrenagens mais perversas da manutenção da desigualdade social no Brasil: a manipulação ideológica que desvia o ódio do verdadeiro responsável.
Ao longo da história brasileira, a elite econômica se protegeu construindo narrativas que culpam os pobres pela própria pobreza. A meritocracia, por exemplo, é frequentemente usada como justificativa para o fracasso estrutural, ignorando os privilégios de classe, cor e origem. Enquanto isso, o trabalhador precarizado é induzido a desprezar o vizinho que recebe auxílio do governo, mas permanece admirando o empresário que sonega bilhões.
Essa lógica perversa serve a um propósito: impedir a união dos de baixo contra os de cima. Ao invés de questionar os lucros exorbitantes dos bancos, a concentração de terras ou a isenção fiscal de grandes grupos, o ódio popular é canalizado contra o “vagabundo do Bolsa Família”, o “servidor público encostado”, o “invasor do MST”, ou o “pobre folgado que não quer trabalhar”.
Jessé Souza explica que essa alienação é um projeto político e ideológico sustentado por parte da mídia, do sistema educacional e das igrejas conservadoras. O objetivo é claro: manter o status quo. Afinal, quando os pobres se unem, as estruturas tremem. Quando se dividem, os ricos comemoram.
Essa realidade se evidencia em tempos de crise, quando aumenta o desemprego, a fome e o desalento, mas também crescem o preconceito de classe, o racismo e o apoio a políticas que punem os próprios pobres, como cortes em programas sociais e aumento de impostos indiretos.
A única saída para romper esse ciclo, segundo Jessé e tantos outros pensadores críticos, é a consciência de classe. É perceber que a luta do morador da periferia não é contra o morador do campo, mas contra o sistema que nega dignidade a ambos. É entender que o inimigo não é quem recebe ajuda do Estado, mas quem sequestra o Estado para manter seus privilégios.
A frase é curta, mas o impacto é profundo:
“O pobre é ensinado a odiar o pobre, para nunca odiar o rico.”
Está na hora de romper esse ensinamento.

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