Família Caiado acumula denúncias, privilégios e uma história marcada por violência, autoritarismo e repressão desde o século XIX
Pela Redação | A Voz do Povo Em Tela

Ao longo de mais de um século, a família Caiado transformou seu sobrenome em sinônimo de poder em Goiás. O que poucos sabem — ou preferem ignorar — é que esse poder tem raízes profundas no escravagismo, no coronelismo e na repressão violenta aos movimentos populares. A história da dinastia Caiado é marcada pela exploração da mão de obra negra, pelo domínio sobre vastas extensões de terra, pela manipulação das instituições e pela perpetuação de uma elite política acostumada a ver o Estado como extensão de sua propriedade.
A trajetória começa ainda no Império, com Antônio José Caiado, que se projetou como um dos maiores latifundiários e políticos da região. Embora tenha se apresentado como “abolicionista”, registros históricos revelam que ele só libertou seus escravizados em 1887, um ano antes da assinatura da Lei Áurea — ou seja, resistiu à mudança até o último momento. Um gesto mais oportunista do que progressista.
A família rapidamente se infiltrou nas esferas de poder. Criaram jornais para sustentar sua narrativa e dominar a opinião pública, ocuparam cargos políticos estratégicos e se aliaram aos governos de ocasião — sempre visando proteger seus interesses econômicos e manter a ordem social que lhes beneficiava.
Um dos nomes mais emblemáticos foi o de Totó Caiado, líder da chamada “Legião Democrata”, que em 1909 comandou uma insurreição armada em Goiás. O episódio, conhecido como Revolução de 1909, foi uma demonstração clara da disposição da família em usar a força militar para resolver disputas políticas. Totó, anos depois, foi nomeado interventor por Washington Luís e permaneceu no cargo até ser deposto por Getúlio Vargas, graças à resistência armada vinda de Minas Gerais. Ou seja: quando o poder não era concedido, eles tomavam.
Outro integrante da família, Mário de Alencastro Caiado, foi juiz, chefe de polícia e articulador político. Sua atuação foi marcada por arbitrariedades, uso do sistema de justiça para perseguições e pela manutenção de um regime conservador que criminalizava qualquer avanço popular. Comandava jornais que agiam como tribunais paralelos, condenando previamente os adversários políticos.
O padrão se repetiu por gerações. A cada ciclo histórico, a família Caiado se adaptava, mas nunca abria mão do poder. Durante a Era Vargas, perderam momentaneamente a hegemonia, mas logo se reorganizaram e voltaram com força. Não importava o regime — monarquia, república, ditadura ou democracia — os Caiado sempre davam um jeito de estar no topo.
Na contemporaneidade, a figura de Ronaldo Caiado, atual governador de Goiás, é a continuidade dessa linhagem. Apresenta-se como homem honesto, defensor da moralidade e da ordem, mas seu discurso é uma caricatura do moralismo hipócrita que sempre protegeu os privilégios da elite ruralista. Caiado é herdeiro direto de um sistema baseado em exclusão, repressão e violência contra os pobres, negros, trabalhadores sem-terra e movimentos sociais.
Em 2014, a Repórter Brasil revelou que um tio de Ronaldo Caiado constava na “lista suja do trabalho escravo”, por manter trabalhadores em situação degradante. O fato, embora grave, foi tratado com silêncio por grande parte da imprensa. Afinal, não se toca em famílias poderosas sem consequências.
Além disso, o próprio Caiado é conhecido por discursos ofensivos, em que relativiza o sofrimento histórico da população negra brasileira, atacando cotas raciais, movimentos progressistas e até mesmo instituições democráticas. Ao se autoproclamar defensor da liberdade, ignora o passado escravagista de sua própria família e os métodos autoritários de seus antecessores.
A história dos Caiado não é uma exceção. É o retrato de como as elites agrárias no Brasil se mantêm no poder há séculos, usando a terra, a violência, o aparato estatal e a manipulação ideológica para se perpetuar. O caso de Goiás é apenas um dos exemplos mais gritantes — uma verdadeira dinastia que começou com senhores de escravos e segue com senhores do orçamento público.
Enquanto o Brasil luta para superar as marcas da escravidão e do autoritarismo, famílias como os Caiado continuam governando como se o povo fosse súdito. Resta ao povo goiano e ao país como um todo reconhecer essa trajetória — e romper com ela

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